segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Tecnologia criada para pessoas: quando um neto transformou burocracia em inovação

 

Experiência vivida por Sebastián Stranieri ao acompanhar a avó em uma prova de vida inspirou a criação da VU e antecipou uma transformação que hoje redefine a segurança digital

Grandes empresas de tecnologia costumam nascer da busca por eficiência ou de avanços técnicos. A história da VU começou de outra forma: com uma cena comum, mas profundamente incômoda. Em meados dos anos 2000, o então especialista em cibersegurança Sebastián Stranieri acompanhou sua avó para realizar uma prova de vida em um “poupatempo” argentino. Idosa, ela precisou enfrentar deslocamentos, filas e um processo burocrático demorado apenas para comprovar sua própria existência.
Naquele momento, Stranieri percebeu uma contradição que continua atual. O procedimento havia sido criado para protegê-la, mas ignorava justamente quem mais precisava dessa proteção. "A segurança estava sendo construída às custas da experiência e da dignidade das pessoas. Foi quando comecei a pensar que deveria existir uma maneira de verificar uma identidade remotamente, com segurança e sem obrigar alguém a passar por tudo aquilo", relembra o fundador e CEO da VU.
A inquietação deu origem, em 2007, à VU, empresa especializada em identidade digital e prevenção de fraudes, que nasceu com uma proposta diferente da que predominava no mercado na época: desenvolver tecnologias que aumentassem a segurança sem criar novas barreiras para os usuários.
Um argentino à frente do seu tempo
Quando a empresa foi fundada, a cibersegurança ainda era concentrada na proteção de redes, servidores e infraestrutura. A identidade das pessoas ocupava um papel secundário. A visão da VU, porém, partia de outro princípio: à medida que serviços financeiros, públicos e privados migrassem para o ambiente digital, seria necessário criar mecanismos capazes de comprovar quem estava do outro lado de cada interação sem tornar essa experiência mais complexa.
"No início, muitos acreditavam que quanto mais etapas existissem em um processo, maior seria a segurança. Hoje sabemos que a complexidade excessiva faz exatamente o contrário: leva as pessoas a criarem atalhos, reutilizar senhas, abandonarem jornadas ou compartilharem credenciais", afirma Stranieri.
Para o executivo, segurança e simplicidade não são conceitos opostos. "Quando a tecnologia é inteligente, ela entende o contexto da operação. Uma pessoa conhecida, utilizando seu dispositivo habitual e dentro do seu padrão de comportamento, consegue acessar um serviço de forma praticamente invisível. O sistema só aumenta as validações quando identifica um risco real."
Tecnologia só faz sentido quando desaparece
Ao longo de quase duas décadas, a empresa consolidou uma filosofia que orienta o desenvolvimento de suas soluções: as pessoas não querem usar tecnologia; elas querem resolver problemas. Essa lógica influencia desde pesquisas de usabilidade até o desenvolvimento das plataformas da companhia.
Antes de criar uma solução, equipes multidisciplinares analisam onde os usuários encontram dificuldades, quais etapas geram abandono, onde ocorrem tentativas de fraude e quais processos burocráticos permanecem apenas porque "sempre foram feitos assim".O objetivo é eliminar fricções desnecessárias e manter apenas aquelas compatíveis com o nível de risco de cada operação.
"A tecnologia precisa se adaptar às pessoas, e não obrigar as pessoas a aprender tecnologia. Isso é especialmente importante para idosos, pessoas com deficiência e usuários com menor familiaridade digital", explica Stranieri.
Da prova de vida à identidade contínua
Desde a fundação da VU, a identidade digital passou por uma transformação profunda. O mercado evoluiu de modelos baseados apenas em usuário e senha para ecossistemas que combinam biometria, inteligência comportamental, análise de dispositivos, autenticação contextual e monitoramento contínuo das interações.
Na avaliação de Stranieri, a América Latina teve um papel relevante nessa evolução."A nossa região precisou acelerar sua transformação digital para ampliar o acesso da população aos serviços financeiros e públicos. Isso impulsionou a inovação”, mas para o CEO, também tornou as fraudes muito mais sofisticadas.
Para Stranieri, o desafio atual não é apenas verificar a identidade de uma pessoa durante o cadastro, mas protegê-la continuamente ao longo de toda a sua jornada digital."Uma pessoa pode ser legítima no momento da abertura da conta e ter suas credenciais comprometidas meses depois. A identidade deixou de ser apenas uma credencial para se tornar a principal camada de confiança da economia digital."
História consolidada
O que começou com uma reflexão sobre a dificuldade enfrentada por uma idosa em uma agência bancária transformou-se em uma plataforma de proteção de identidade utilizada por organizações em mais de 30 países. Atualmente, a empresa atende mais de 170 clientes, principalmente instituições financeiras, processa mais de 100 milhões de transações mensais e protege mais de 350 milhões de pessoas.
Para Stranieri, porém, a principal lição desses quase 20 anos permanece a mesma daquela manhã em que acompanhou sua avó ao banco."As pessoas não acordam querendo fazer uma autenticação ou passar por uma biometria. Elas querem acessar sua conta, receber um benefício, contratar um serviço ou cuidar da própria vida. A tecnologia só cumpre seu papel quando deixa de ser um obstáculo e passa a funcionar de forma quase invisível, protegendo as pessoas sem que elas precisem pensar nela", finaliza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Eixo Centro-Universitário de Goiânia tem programação cultural e esportiva todos os dias da semana

  Rua do Lazer, Praça Universitária, Centro Cultural UFG, Teatro Basileu França e Estádio Onésio Brasileiro Alvarenga formam um roteiro de c...