segunda-feira, 28 de setembro de 2026

DIU hormonal ganha espaço no tratamento da endometriose

 

Especialista explica que a indicação de uso deve considerar o tipo de endometriose, os sintomas e as características de cada paciente

 

Cerca de uma em cada dez mulheres brasileiras convive com a endometriose, segundo estimativa da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE). A doença, caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina, pode provocar dor pélvica, cólicas intensas e desconforto durante as relações sexuais, além de impactar a qualidade de vida.

 

Entre as opções para o controle dos sintomas estão os tratamentos hormonais e, desde 2025, o DIU liberador de levonorgestrel passou a integrar as opções incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) para pacientes com endometriose que apresentam contraindicação ou não adesão aos contraceptivos orais combinados.

 

De acordo com o ginecologista e obstetra da Clínica Ginelife, Dr. Marcos Tcherniakovsky, diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE), os anticoncepcionais hormonais estão entre as alternativas de primeira linha para o tratamento da doença, podendo ser utilizados em diferentes apresentações, como comprimidos, vaginais, injetáveis, implantes e DIUs hormonais. Analgésicos e anti-inflamatórios também podem fazer parte da estratégia para controle da dor. “Não existe uma alternativa única ou a melhor alternativa. A melhor é aquela que se adapta a cada mulher”, explica.

 

Entre os DIUs hormonais que liberam levonorgestrel, há 2 opções com diferentes dosagens. Para pacientes com endometriose, segundo o especialista, o de maior dosagem (52mg) é o mais indicado  por conseguir brecar o ciclo menstrual com maior facilidade e  por ter maior capacidade de reduzir a dor.“Quanto menos a mulher com endometriose menstruar, melhor. Quanto mais menstruar, pior”, afirma.

 

O dispositivo atua principalmente de forma local no útero, promovendo atrofia do endométrio e reduzindo a ação hormonal sobre o tecido endometrial. “O DIU hormonal é uma excelente alternativa para aquela mulher que não quer lembrar todos os dias de tomar a medicação ou que tem dificuldade de adesão. Ele tem uma ação mais local e funciona como método anticoncepcional e hormonal, reduzindo a ação do estrogênio, que está relacionado à progressão da endometriose”, explica Dr. Marcos.

 

Entre os benefícios está a possibilidade de uso prolongado e a redução importante do fluxo menstrual. Segundo o especialista, cerca de 65% das mulheres que utilizam o DIU hormonal deixam de menstruar, o que pode ser positivo no controle da endometriose.

 

A literatura científica também aponta benefícios do DIU de levonorgestrel no controle da dor pélvica e da dor durante a atividade sexual, além de sua utilização na prevenção da recorrência da doença após cirurgia.

 

Apesar dos benefícios, o método não deve ser indicado para todos os quadros. “Para pacientes com endometrioma, que é a endometriose localizada no ovário, não preconizamos o uso dessa medicação como tratamento da lesão, pois em alguns casos a mulher pode ter estimulo no ovario e ovular. A indicação precisa considerar o tipo de endometriose, os sintomas e as características de cada paciente”, esclarece.

 

A adaptação ao dispositivo também deve ser acompanhada com orientação médica. Nos primeiros meses, a mulher pode continuar menstruando ou apresentar alterações no padrão de sangramento, o que não significa necessariamente que o método não esteja funcionando. “É preciso ter tranquilidade para aguardar a adaptação. Uma mulher que coloca o Mirena pode ainda menstruar durante alguns meses. O médico precisa explicar como funciona o mecanismo de ação para que ela entenda o que está acontecendo com o próprio corpo”, orienta.

 

O acompanhamento também é importante para verificar o posicionamento do dispositivo e avaliar a resposta ao tratamento. Segundo o especialista, alterações na anatomia uterina, como alguns miomas, pólipos ou malformações, podem contraindicar o uso e devem ser avaliadas individualmente.

 

A incorporação do DIU de levonorgestrel ao SUS representa mais uma alternativa para mulheres que precisam controlar os sintomas da endometriose. O Ministério da Saúde mantém protocolo específico para diagnóstico, tratamento e acompanhamento da doença, que pode envolver estratégias medicamentosas e, em casos selecionados, cirurgia.

 

“É um método que pode trazer muita tranquilidade para a paciente, principalmente para quem busca uma opção de longa duração e não quer depender da tomada diária de um medicamento. Mas a escolha deve sempre ser individualizada e feita em conjunto com o médico”, conclui Dr. Marcos.


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